São 5h da manhã. Meu despertador toca no meio do breu. Floki, gato da minha namorada, se ajeita na cama sem entender nada. Eu também não entendo. Pela primeira vez na vida, há um terno pendurado me esperando do lado da cama. Cinco horas depois estou sentado em uma reunião da ONU, no centro de São Paulo.

Por quê? Eu confesso que não sei responder direito.

Eu não fundei a Operação Serenata de Amor.

Uma amiga me marcou em um post do Irio Musskopf, criador da Serenata, em que ele procurava um jornalista para trabalhar em um projeto. Gostei da ideia. No dia seguinte, ele e o Bruno Pazzim me convidaram para coordenar a atividade jornalística da Operação, mais ou menos 20 dias antes dela nascer para o mundo.

Eu nunca tinha trabalhado como jornalista — ok, eu sou formado em comunicação e já tinha escrito facilmente mais de mil textos na vida, mas quase sempre como publicitário. Eu tive que jogar no Google como se escrevia um press release. Não lembrava mais.

Não foi difícil: com o press release escrito, a Serenata saiu em mais de 80 veículos de comunicação em um intervalo de 6 meses. No primeiro, eu mal sabia explicar direito o que era o projeto, como funciona uma inteligência artificial e o que era uma API, por exemplo. Aliás, lembrem das APIs. Já volto nelas.

A gente saiu em muitos lugares. Até em vlog de sexo. E foi incrível. Uma matéria ia puxando a outra, que puxava a outra. E a gente ia conseguindo dinheiro para financiar o projeto no nosso crowdfunding — também o primeiro da minha vida.

Até que um dia, eu saía do meu treino de jiu jitsu, duas e meia da tarde. Uma voz comum falava do outro lado do telefone: “Pedro, aqui é Zileide Silva.”. Oi? Em que posso ajudar? Como? Duas horas depois ela estava sentada na sala da casa da minha mãe, em Brasília, para gravar uma matéria para o Jornal Nacional.

Pausa.

Um mês antes do telefonema da Zileide, o time do Serenata decidiu fazer um “Mutirão de Denúncias” à Câmara dos Deputados. Com a Rosie, nossa robô, pronta, nós detectamos mais de 8 mil suspeitas. Reunimos tudo isso e com um esforço tecnológico e manual fizemos algumas denúncias em uma semana de trabalho. Na verdade, 629 denúncias. Um número assombroso, que nos levou a uma visita à Câmara e à visita da Zileide.

“Um grupo de cidadãos brasileiros muito jovens criou um programa de computador para fiscalizar os gastos públicos.”, dizia William Bonner na abertura da nossa matéria no Jornal Nacional. Dez minutos depois, eu tinha 300 novas mensagens no Facebook, dentre elas, currículos e fotos de partes íntimas.

Eu ainda não tinha ideia do que eu estava fazendo.

Era muito bom fazer parte do Serenata, mas eu não sabia ainda exatamente o que era aquilo. O tamanho do projeto. Talvez por isso tenha me afastado um pouco das operações entre março e abril, para cuidar da Niña — adivinha: minha primeira empresa, aberta no fim de 2016.

Nesse meio tempo, eu ia a um evento ou outro. Cheguei a viajar para falar algumas vezes, o que já era inimaginável. Quando publicitário, eu só apresentei uma única campanha no cliente, porque era novo demais para falar. Com o Serenata, minha primeira fala foi no Calango Hacker Club, para um público que manjava muito mais do assunto que eu ia falar do que eu mesmo.

Por falar em público qualificado, em maio — já de volta diariamente ao projeto — recebi um convite do Dario Joffily para falar no Demos. Era um novo curso da Perestroika que buscava dar propósito a servidores públicos. Achei a ideia fantástica, mas tive medo: eu nunca tinha falado para uma turma assim. A galera trabalha no governo, mano, eu tô nessa só há alguns meses. Vou passar vergonha. Nos divertimos.

Uns dias depois, meu telefone toca de novo. Estava sendo convidado para falar no Tomorrow X, meio de última hora, dois ou três dias antes do evento. Topei, vai. Que que custa? É mais um evento, do lado de casa, mais visibilidade pro projeto. Bora.

Pela primeira vez resolvi tentar não cobrir minhas falhas técnicas em programação e desenvolvimento. Fiz a minha primeira palestra mais escrachada, solta. Coloquei piadas para falar de problemas. Com o cu na mão, é verdade. Eu não sou humorista. Foi exatamente o que eu respondi para um cara, depois de ter feito o auditório me aplaudir em uma piadinha, enquanto ele me convidava para um show de stand up.

Não, aí é demais. Recusei. Duas semanas depois, outro telefonema. Santiago Andreuzza, o Santi, da Aerolito, me chamando para repetir a fala em São Paulo. Poxa, que legal, topo sim. Vai ser divertido.

Corta.

Vou almoçar com um amigo em Brasília. “Porra, cara, parabéns pelo negócio lá que tu tá fazendo com a NASA.”. Oi? Não tem nada com a NASA. Tá maluco? “Não, ué, vi num site. Achei foda.”. Não, mano. Não tem NASA. Puta que pariu, me hackearam. “Calma, Pedro, olha aqui”.

O evento em São Paulo era o Friends of Tomorrow Conference — uma das maiores convenções de tecnologia do Brasil. E a palestra principal seria, sim, da NASA: Dra. Yvone Cagle, astronauta. Um fechamento para um evento realmente assustador. Eu estava do lado de pessoas cujo trabalho admirava muito.

Cheguei um dia antes, para passar o som e as vinhetas. De cima do palco, ouvi uma voz dizer: “Who is Pedro? He is here?” — era Paola Santana, fundadora da Matternet, uma das iniciativa mais incríveis que eu já tinha visto até então. Ela queria falar sobre o Serenata, a iniciativa mais incrível que ela já tinha visto até então.

Apesar da presença do nosso time na Europa, eu também nunca tinha falado sobre o projeto em inglês. Lembra das APIs? Então, eu fiz questão de explicar, em inglês, como funcionavam as APIs do Google para o Amrit Dhir, líder de operações do… Google. Essa também foi a primeira — e última — vez que eu deixei de pesquisar um pouco sobre os outros palestrantes.

E sabe a vinheta? Eu acabei com ela quando pedi pro Felipe Anghinoni para eu entrar correndo no palco, cinco minutos antes da minha fala. Deu certo. E eu não sei exatamente o porquê — também nunca tinha feito. Mas me senti o Michael Jordan nos corredores do United Center.

Aí, eu já tinha falado em uns 15 eventos. Estava bem satisfeito e feliz. Mas sabe a Teoria do Caos? Uma coisinha leva a outra, que leva a outra, e a outra. E quando você vê, fudeu. É isso. Pós FoT Conference, eu recebia ao menos um convite por semana para falar em algum canto. Falei em todas as Campus Party e em quatro das cinco regiões do Brasil.

Eu não tinha muita ideia do que estava fazendo. Eu simplesmente ia falando, fazendo algumas piadas — ok, até mais que algumas — e trabalhando. Com algum esforcinho colocamos a Serenata no Fantástico. 30 mil seguidores novos em alguns minutos. Boom.

O trabalho realmente tinha ganhado novas proporções.

Eu achava que só sentiria o peso do que estava fazendo se um dia alguém me reconhecesse na rua. Idiota. Foi justamente o contrário. Ao ver meu próprio reflexo, de terno e gravata, no vidro dos fundos da sala de reuniões da ONU é que eu não me reconheci. E vi. Meu Deus.

Que que você tá fazendo aí, mano?

Eu não sabia direito. E passei o ano sem saber. Meio que fazendo tudo pela primeira vez. De novo e de novo. A anedota que diz que 2017 foi um ano ímpar sai quase sozinha. Ímpar também foi o número de palestras: 39. Mas, mais do que isso, 2017 foi o ano zero. O tamanho da Serenata, os projetos grandes da Niña, as viagens e até meus primeiros programas: quase tudo o que existiu nele, não existia há um ano atrás.

E eu não tenho sequer a menor ideia do que vai acontecer daqui pra frente.

Espero que essa sensação me acompanhe pro resto da vida.