Nota: Fiquei pensando muito se escrevia esse texto ou não. Aí escrevi. Depois, fiquei pensando se publicava ou não. Se por acaso seria uma exposição desnecessária. A reação de vocês é que me dirá.

Essa semana fui impactado novamente por uma campanha nas redes sociais de conscientização sobre saúde mental e prevenção ao suicídio. Você também deve ter visto. Acontece que depois de tanto tempo olhando esse assunto de fora, dessa vez eu fui impactado como paciente. Como um jovem medicado com 70mg/dia de antidepressivos.

Em janeiro desse ano eu fui diagnosticado com depressão, depois de um ano bastante conturbado, com inúmeras crises de ansiedade, noites de insônia e uma carga de trabalho completamente desnecessária. Saúde mental nunca havia sido um tabu para mim: pessoas próximas já tinham sido tratadas por psiquiatras em diferentes situações.

Mas eu hoje eu te falo com absoluta certeza: se você nunca teve depressão, você não faz a menor ideia do que essa doença representa. Pausa aqui. Essa frase hoje parece até ridícula. Imagina se eu te dissesse: quem nunca teve dengue não faz ideia do quanto é ruim, ou ainda, quem nunca teve câncer não tem ideia do inferno que é.

Na depressão sempre há um tratamento caseiro ou uma opinião leiga. Eu mesmo lembro de dizer várias vezes a pessoas próximas a mim: “Vamos ao shopping. Vamos ver gente. Vai melhorar.”. Pff. Risos. Fim da pausa.

Em 6 meses de depressão, eu nunca tive ideações, maneira como os profissionais de saúde chamam os pensamentos de auto-extermínio. Porém, embora o suicídio nunca tenha sido uma opção para mim, a doença me tirou bastante. Com 15 dias de diagnóstico, eu perdi o emprego dos sonhos: cargo de líder técnico em uma empresa no Vale do Silício — o olimpo de quem trabalha na minha área. 2 meses depois, joguei pelo ralo um contrato de 6 dígitos porque não conseguia conceber a ideia de ter que ir a São Paulo assinar a papelada. Fora os momentos especiais que eu não aproveitei, incluindo o aniversário de grandes amigos — e o meu.

Mesmo assim, me sinto privilegiadíssimo. Estou no lucro. Tudo o que eu perdi, posso ter tempo de reconquistar estando saudável. Foda-se o trabalho. Na vida, eu sempre estive correndo. E quando você corre, você nunca está com os dois pés no chão. A depressão parou essa maratona. E me colocou parado, observando ao meu redor.

Agora, vamos fazer um exercício juntos. Pense na campanha de conscientização à paralisia infantil. Qual a ação que o governo propõe? Vacinas. Câncer de mama? Façam acompanhamento periódico. Tuberculose? Medicamentos para a cura.

Nunca. Nunquinha as campanhas de saúde pedem que você busque um amigo. Ou você já viu uma campanha de câncer de próstata sugerir que você dê uma dedada no seu tio para salvá-lo? Por isso, não entra na minha cabeça que as campanhas de combate à depressão e prevenção ao suicídio envolvam apenas caixas de mensagem nas redes sociais e conversa.

A rede de apoio ajuda. E não é pouco. Metade da minha cura se dá pela força que recebo da família e amigos. Mas estamos falando na segunda maior causa de morte para jovens no mundo. De acordo com a OMS, a estatística é de um suicídio a cada 40 segundos. Esse texto vai demorar uns 3 minutos para ser lido. Bang! Menos 4 jovens no mundo.

Nós somos uma sociedade doente, sim. Porém igualmente evoluída. Não é possível que em 2019, com fotos de buraco negro e aceleradores de partículas, a gente ainda queira tratar doenças com remédios caseiros.

CVV faz um trabalho incrível e estou certo de que salva vidas quando não há quase nada mais a ser feito. Mas eu quero dar uns passos antes. Depressão é uma doença e doença a gente trata. Há especialistas na área de saúde. Há congressos mundiais para abordar o tema.

Eu só comecei a melhorar depois de 6 idas ao psiquiatra. Com dois medicamentos diferentes e alterações severas na dieta. Detalhes de um processo químico complexo que eu não seria capaz de recomendar nem mesmo a quem eu mais amo, pelo simples fato de não possuir esse conhecimento.

Converse com seus amigos, claro. Perceba os sinais. Mas saiba que não adianta querer levar o depressivo para o shopping. Enquanto estive em crise, não havia lugar no mundo que recuperasse o meu ânimo. Você poderia me levar para Paris: seria uma viagem de merda. A depressão é um problema interno. E não se trata problema interno mudando apenas o que se vê do lado de fora.

Nós precisamos de saúde. O SUS oferece tratamento psiquiátrico a portas abertas. Em diversos municípios há centros de atendimento psicossocial gratuitos. Se um amigo seu lhe pedir ajuda, estenda a mão, sim. Mas coloque os dois pés no chão e caminhe com ele até uma ajuda especializada.