5 de May de 2020No Comments

O homem impossível

Na semana passada a influencer, blogueira ou qualquer que seja o adjetivo que você queira relacionar a ela, Gabriela Pugliesi, foi protagonista de mais um apedrejamento virtual da nossa era. 

Cancelada, enquanto escrevo Pugliese está inclusive com seu perfil no instagram desativado. Uma espécie de congelamento no tempo. Um circuit breaker dos influenciadores. Explico: com a conta desativada, é impossível deixar de segui-la. Ela aguarda algum tempo e retorna quando a poeira baixar. 

É tudo milimetricamente calculado. E é disso que eu quero falar. 

Não, esse não é um texto de linchamento à Gabriela. 

Ela estava errada? Sim. Muito, por sinal. Mas não foi a única. Esse final de semana, ao comentar com um amigo que estava escutando do meu apartamento uma festinha em algum lugar, ele me disse que uns dias antes ocorreu o mesmo em seu prédio. 

E nenhum de nós é vizinho da blogueira. 

É claro que o poder de influência desse tipo de pessoa faz com que sua responsabilidade seja muito maior. E deve ser, mesmo. Mas eventos como esse nos lembram de algo que teimamos em esquecer: essa gente é normal. Esse é o seu normal. 

Gente normal pisa na bola. Faz merda. 

O fato da influencer ter ficado famosa por dar dicas de saúde e mostrar um estilo de vida tido como impecável joga sobre ela uma culpa ainda maior. 

Acaba que Pugliese é refém do circo que ela mesma montou. Onde a atração é sua própria vida. E em um tempo de pandemia, onde não temos mesmo uma rotina muito diferente para esbanjar, é preciso se virar para aparecer. No fundo, eu penso: "Bem feito, tinha mais é que se fuder.". Mas por outro lado, eu me pergunto incrédulo como chegamos a esse ponto. 

O ponto em que acabamos esquecendo o que é real real e sendo completamente inconsequentes para nutrir o real virtual.

O real é um número recorde de mortos no país e estados sitiados na pandemia. O real virtual é dar uma festa e registrar. Ao contar essa história para alguém 20 anos atrás, antes de qualquer rede social, imagino a resposta.  

"Mas quem é que registrou essa festa? Não é possível que ela mesmo fez isso."

Nos anos 90, lembro de assistir a comerciais de uma bebida isotônica com uma musiquinha hipnotizante com o Michael Jordan. "Like Mike. I could be like Mike" (Igual ao Mike, eu poderia ser igual ao Mike). 

Todo mundo queria ser o Michael Jordan. 

É claro que sim. O Michael Jordan é um baita de um negão forte, multicampeão, engraçado nas declarações, milionário e ainda por cima estiloso. Quem não ia querer ser assim?

Talvez uma pessoa que acompanhasse Michael 24h por dia. Assim, veria seu lado arrogante, ambicioso, vaidoso e com hábitos não tão saudáveis. Um Michael humano. 

Quase 30 anos depois, criamos hábitos diferentes para nos vendermos. Guardadas as proporções, enquanto Michael precisava entrar em quadra e treinar horas a fio por dia, hoje é possível fazer dinheiro de uma forma mais democrática: se filmando em casa. 

Em bem menos tempo que 30 anos, essa prática se tornou muito comum, fazendo com que muita gente aderisse e se tornasse criadora de conteúdo. O mercado foi ficando cada vez mais profissional. E mesmo com o conteúdo não sendo sempre tão relevante, é quase sempre bonito e mimético ao natural. 

Não é idêntico. Não faz referência. Ele cria uma associação na nossa cabeça. É como um show de mágica. Ou de hipnose, não sei. 

Quando a gente acorda, com bafo e remela, já tem stories de alguém acordando e dançando, sem bafo e sem remela. A gente nem reflete se aquilo é ou não normal. Se aquela pessoa acordou assim ou se tomou um banho e voltou pra cama só para gravar aquele pedaço de vídeo. 

São profissionais cujo maior trunfo é ter cara e um jeitão de amador. Uma constatação que inclusive vale também para sites de conteúdo adulto. 

Dado o tempo que passamos consumindo conteúdo nas redes sociais, levamos o nosso dia todo acompanhando uma super obra de ficção. Pessoas bonitas, em forma, engraçadas, talentosas. 

É ótimo. 

O problema é que não nos damos conta de que tudo aquilo é montado. Acaba que em um dia, a única realidade que vemos de fato é a nossa vida fora da tela. É há muita discrepância. 

A sua companheira não acorda igual à blogueira. Você não tem o abdômen do influencer. Aquele cara é muito mais engraçado que você. E os tutoriais de maquiagem em 10 minutos? Puta que pariu, eu não acerto nem esse delineado. 

Será que só eu sou um fracasso?

Não, na verdade só estamos o tempo todo mirando no homem impossível. Aquele que o "darwinismo de internet" foi selecionando e colocou como relevante. 

E não se limita apenas à forma, mas ao conteúdo. São todos veganos, descontruídos, sustentáveis, politizados, pais de lindas crianças adotadas e incapazes de cometer uma gafe, uma covardia ou uma injúria. 

Como eternizou Fernando Pessoa no "Poema em linha reta", todos têm sido campeões em tudo. 

E logo você, que nem o abdômen definido tem, vai acabar deslizando em um comentário estúpido no meio da manhã?

Ah, não. 

É claro que é preciso evoluir. Mas acho que fomos rápidos demais. Calculistas. 

Nos tornamos impossíveis de sermos acompanhados por nós mesmos. 

4 de May de 2019No Comments

A depressão colocou os meus dois pés no chão

Nota: Fiquei pensando muito se escrevia esse texto ou não. Aí escrevi. Depois, fiquei pensando se publicava ou não. Se por acaso seria uma exposição desnecessária. A reação de vocês é que me dirá.

Essa semana fui impactado novamente por uma campanha nas redes sociais de conscientização sobre saúde mental e prevenção ao suicídio. Você também deve ter visto. Acontece que depois de tanto tempo olhando esse assunto de fora, dessa vez eu fui impactado como paciente. Como um jovem medicado com 70mg/dia de antidepressivos.

Em janeiro desse ano eu fui diagnosticado com depressão, depois de um ano bastante conturbado, com inúmeras crises de ansiedade, noites de insônia e uma carga de trabalho completamente desnecessária. Saúde mental nunca havia sido um tabu para mim: pessoas próximas já tinham sido tratadas por psiquiatras em diferentes situações.

Mas eu hoje eu te falo com absoluta certeza: se você nunca teve depressão, você não faz a menor ideia do que essa doença representa. Pausa aqui. Essa frase hoje parece até ridícula. Imagina se eu te dissesse: quem nunca teve dengue não faz ideia do quanto é ruim, ou ainda, quem nunca teve câncer não tem ideia do inferno que é.

Na depressão sempre há um tratamento caseiro ou uma opinião leiga. Eu mesmo lembro de dizer várias vezes a pessoas próximas a mim: “Vamos ao shopping. Vamos ver gente. Vai melhorar.”. Pff. Risos. Fim da pausa.

Em 6 meses de depressão, eu nunca tive ideações, maneira como os profissionais de saúde chamam os pensamentos de auto-extermínio. Porém, embora o suicídio nunca tenha sido uma opção para mim, a doença me tirou bastante. Com 15 dias de diagnóstico, eu perdi o emprego dos sonhos: cargo de líder técnico em uma empresa no Vale do Silício — o olimpo de quem trabalha na minha área. 2 meses depois, joguei pelo ralo um contrato de 6 dígitos porque não conseguia conceber a ideia de ter que ir a São Paulo assinar a papelada. Fora os momentos especiais que eu não aproveitei, incluindo o aniversário de grandes amigos — e o meu.

Mesmo assim, me sinto privilegiadíssimo. Estou no lucro. Tudo o que eu perdi, posso ter tempo de reconquistar estando saudável. Foda-se o trabalho. Na vida, eu sempre estive correndo. E quando você corre, você nunca está com os dois pés no chão. A depressão parou essa maratona. E me colocou parado, observando ao meu redor.

Agora, vamos fazer um exercício juntos. Pense na campanha de conscientização à paralisia infantil. Qual a ação que o governo propõe? Vacinas. Câncer de mama? Façam acompanhamento periódico. Tuberculose? Medicamentos para a cura.

Nunca. Nunquinha as campanhas de saúde pedem que você busque um amigo. Ou você já viu uma campanha de câncer de próstata sugerir que você dê uma dedada no seu tio para salvá-lo? Por isso, não entra na minha cabeça que as campanhas de combate à depressão e prevenção ao suicídio envolvam apenas caixas de mensagem nas redes sociais e conversa.

A rede de apoio ajuda. E não é pouco. Metade da minha cura se dá pela força que recebo da família e amigos. Mas estamos falando na segunda maior causa de morte para jovens no mundo. De acordo com a OMS, a estatística é de um suicídio a cada 40 segundos. Esse texto vai demorar uns 3 minutos para ser lido. Bang! Menos 4 jovens no mundo.

Nós somos uma sociedade doente, sim. Porém igualmente evoluída. Não é possível que em 2019, com fotos de buraco negro e aceleradores de partículas, a gente ainda queira tratar doenças com remédios caseiros.

CVV faz um trabalho incrível e estou certo de que salva vidas quando não há quase nada mais a ser feito. Mas eu quero dar uns passos antes. Depressão é uma doença e doença a gente trata. Há especialistas na área de saúde. Há congressos mundiais para abordar o tema.

Eu só comecei a melhorar depois de 6 idas ao psiquiatra. Com dois medicamentos diferentes e alterações severas na dieta. Detalhes de um processo químico complexo que eu não seria capaz de recomendar nem mesmo a quem eu mais amo, pelo simples fato de não possuir esse conhecimento.

Converse com seus amigos, claro. Perceba os sinais. Mas saiba que não adianta querer levar o depressivo para o shopping. Enquanto estive em crise, não havia lugar no mundo que recuperasse o meu ânimo. Você poderia me levar para Paris: seria uma viagem de merda. A depressão é um problema interno. E não se trata problema interno mudando apenas o que se vê do lado de fora.

Nós precisamos de saúde. O SUS oferece tratamento psiquiátrico a portas abertas. Em diversos municípios há centros de atendimento psicossocial gratuitos. Se um amigo seu lhe pedir ajuda, estenda a mão, sim. Mas coloque os dois pés no chão e caminhe com ele até uma ajuda especializada.

9 de December de 2017No Comments

2017: o ano zero

São 5h da manhã. Meu despertador toca no meio do breu. Floki, gato da minha namorada, se ajeita na cama sem entender nada. Eu também não entendo. Pela primeira vez na vida, há um terno pendurado me esperando do lado da cama. Cinco horas depois estou sentado em uma reunião da ONU, no centro de São Paulo.

Por quê? Eu confesso que não sei responder direito.

Eu não fundei a Operação Serenata de Amor.

Uma amiga me marcou em um post do Irio Musskopf, criador da Serenata, em que ele procurava um jornalista para trabalhar em um projeto. Gostei da ideia. No dia seguinte, ele e o Bruno Pazzim me convidaram para coordenar a atividade jornalística da Operação, mais ou menos 20 dias antes dela nascer para o mundo.

Eu nunca tinha trabalhado como jornalista — ok, eu sou formado em comunicação e já tinha escrito facilmente mais de mil textos na vida, mas quase sempre como publicitário. Eu tive que jogar no Google como se escrevia um press release. Não lembrava mais.

Não foi difícil: com o press release escrito, a Serenata saiu em mais de 80 veículos de comunicação em um intervalo de 6 meses. No primeiro, eu mal sabia explicar direito o que era o projeto, como funciona uma inteligência artificial e o que era uma API, por exemplo. Aliás, lembrem das APIs. Já volto nelas.

A gente saiu em muitos lugares. Até em vlog de sexo. E foi incrível. Uma matéria ia puxando a outra, que puxava a outra. E a gente ia conseguindo dinheiro para financiar o projeto no nosso crowdfunding — também o primeiro da minha vida.

Até que um dia, eu saía do meu treino de jiu jitsu, duas e meia da tarde. Uma voz comum falava do outro lado do telefone: “Pedro, aqui é Zileide Silva.”. Oi? Em que posso ajudar? Como? Duas horas depois ela estava sentada na sala da casa da minha mãe, em Brasília, para gravar uma matéria para o Jornal Nacional.

Pausa.

Um mês antes do telefonema da Zileide, o time do Serenata decidiu fazer um “Mutirão de Denúncias” à Câmara dos Deputados. Com a Rosie, nossa robô, pronta, nós detectamos mais de 8 mil suspeitas. Reunimos tudo isso e com um esforço tecnológico e manual fizemos algumas denúncias em uma semana de trabalho. Na verdade, 629 denúncias. Um número assombroso, que nos levou a uma visita à Câmara e à visita da Zileide.

“Um grupo de cidadãos brasileiros muito jovens criou um programa de computador para fiscalizar os gastos públicos.”, dizia William Bonner na abertura da nossa matéria no Jornal Nacional. Dez minutos depois, eu tinha 300 novas mensagens no Facebook, dentre elas, currículos e fotos de partes íntimas.

Eu ainda não tinha ideia do que eu estava fazendo.

Era muito bom fazer parte do Serenata, mas eu não sabia ainda exatamente o que era aquilo. O tamanho do projeto. Talvez por isso tenha me afastado um pouco das operações entre março e abril, para cuidar da Niña — adivinha: minha primeira empresa, aberta no fim de 2016.

Nesse meio tempo, eu ia a um evento ou outro. Cheguei a viajar para falar algumas vezes, o que já era inimaginável. Quando publicitário, eu só apresentei uma única campanha no cliente, porque era novo demais para falar. Com o Serenata, minha primeira fala foi no Calango Hacker Club, para um público que manjava muito mais do assunto que eu ia falar do que eu mesmo.

Por falar em público qualificado, em maio — já de volta diariamente ao projeto — recebi um convite do Dario Joffily para falar no Demos. Era um novo curso da Perestroika que buscava dar propósito a servidores públicos. Achei a ideia fantástica, mas tive medo: eu nunca tinha falado para uma turma assim. A galera trabalha no governo, mano, eu tô nessa só há alguns meses. Vou passar vergonha. Nos divertimos.

Uns dias depois, meu telefone toca de novo. Estava sendo convidado para falar no Tomorrow X, meio de última hora, dois ou três dias antes do evento. Topei, vai. Que que custa? É mais um evento, do lado de casa, mais visibilidade pro projeto. Bora.

Pela primeira vez resolvi tentar não cobrir minhas falhas técnicas em programação e desenvolvimento. Fiz a minha primeira palestra mais escrachada, solta. Coloquei piadas para falar de problemas. Com o cu na mão, é verdade. Eu não sou humorista. Foi exatamente o que eu respondi para um cara, depois de ter feito o auditório me aplaudir em uma piadinha, enquanto ele me convidava para um show de stand up.

Não, aí é demais. Recusei. Duas semanas depois, outro telefonema. Santiago Andreuzza, o Santi, da Aerolito, me chamando para repetir a fala em São Paulo. Poxa, que legal, topo sim. Vai ser divertido.

Corta.

Vou almoçar com um amigo em Brasília. “Porra, cara, parabéns pelo negócio lá que tu tá fazendo com a NASA.”. Oi? Não tem nada com a NASA. Tá maluco? “Não, ué, vi num site. Achei foda.”. Não, mano. Não tem NASA. Puta que pariu, me hackearam. “Calma, Pedro, olha aqui”.

O evento em São Paulo era o Friends of Tomorrow Conference — uma das maiores convenções de tecnologia do Brasil. E a palestra principal seria, sim, da NASA: Dra. Yvone Cagle, astronauta. Um fechamento para um evento realmente assustador. Eu estava do lado de pessoas cujo trabalho admirava muito.

Cheguei um dia antes, para passar o som e as vinhetas. De cima do palco, ouvi uma voz dizer: “Who is Pedro? He is here?” — era Paola Santana, fundadora da Matternet, uma das iniciativa mais incríveis que eu já tinha visto até então. Ela queria falar sobre o Serenata, a iniciativa mais incrível que ela já tinha visto até então.

Apesar da presença do nosso time na Europa, eu também nunca tinha falado sobre o projeto em inglês. Lembra das APIs? Então, eu fiz questão de explicar, em inglês, como funcionavam as APIs do Google para o Amrit Dhir, líder de operações do… Google. Essa também foi a primeira — e última — vez que eu deixei de pesquisar um pouco sobre os outros palestrantes.

E sabe a vinheta? Eu acabei com ela quando pedi pro Felipe Anghinoni para eu entrar correndo no palco, cinco minutos antes da minha fala. Deu certo. E eu não sei exatamente o porquê — também nunca tinha feito. Mas me senti o Michael Jordan nos corredores do United Center.

Aí, eu já tinha falado em uns 15 eventos. Estava bem satisfeito e feliz. Mas sabe a Teoria do Caos? Uma coisinha leva a outra, que leva a outra, e a outra. E quando você vê, fudeu. É isso. Pós FoT Conference, eu recebia ao menos um convite por semana para falar em algum canto. Falei em todas as Campus Party e em quatro das cinco regiões do Brasil.

Eu não tinha muita ideia do que estava fazendo. Eu simplesmente ia falando, fazendo algumas piadas — ok, até mais que algumas — e trabalhando. Com algum esforcinho colocamos a Serenata no Fantástico. 30 mil seguidores novos em alguns minutos. Boom.

O trabalho realmente tinha ganhado novas proporções.

Eu achava que só sentiria o peso do que estava fazendo se um dia alguém me reconhecesse na rua. Idiota. Foi justamente o contrário. Ao ver meu próprio reflexo, de terno e gravata, no vidro dos fundos da sala de reuniões da ONU é que eu não me reconheci. E vi. Meu Deus.

Que que você tá fazendo aí, mano?

Eu não sabia direito. E passei o ano sem saber. Meio que fazendo tudo pela primeira vez. De novo e de novo. A anedota que diz que 2017 foi um ano ímpar sai quase sozinha. Ímpar também foi o número de palestras: 39. Mas, mais do que isso, 2017 foi o ano zero. O tamanho da Serenata, os projetos grandes da Niña, as viagens e até meus primeiros programas: quase tudo o que existiu nele, não existia há um ano atrás.

E eu não tenho sequer a menor ideia do que vai acontecer daqui pra frente.

Espero que essa sensação me acompanhe pro resto da vida.

10 de September de 2016No Comments

Teorema da Altinha

Eu não tenho sotaque. Mas minha paixão por mate de latão, biscoito globo e praia denunciam: eu sou carioca. E o pior: daqueles com raízes. Pais cariocas, avós cariocas. Não nego: meu background é feito de conceitos aprendidos entre a Tijuca e o Posto 12.

E mesmo morando há muitos anos em Brasília, bastam algumas horas no Rio para que eu recarregue esse repositório.

Mas calma. Esse texto não é uma ode à carioquice nem a aplausos ao pôr-do-sol. É um ensaio sobre o quão simples as relações que construímos na vida podem ser. Tão simples quanto um domingo de praia, mesmo que você more em Brasília, como eu.

Não sei qual foi a última vez que você foi à praia de Ipanema. Mas acredito que, se foi, tenha esbarrado com um dos maiores ícones culturais da zona sul: a altinha. No resto do Brasil ela tem outros nomes, mas no Rio essa é a alcunha daquele esporte em que os amigos, em roda, chutam uma bola de futebol uns para os outros sem que ela toque na areia.

Familiarizado com a altinha? Ótimo. Então vamos ao universal Teorema da Altinha.

Para mim, o conceito da altinha é a forma mais simples de entender como pautar as relações que você tem a fazer na vida, em especial nos negócios.

Primeiro, é impossível jogar altinha sozinho. Se você não tem amigos, é embaixadinha — e não tem a menor emoção. Na altinha é preciso pelo menos duas pessoas. E digo pelo menos porque quanto menor a quantidade de gente, maior vai precisar ser o empenho para que a coisa aconteça.

Na altinha todo mundo tem que estar a fim. Se não está, senta na cadeira e observa. Não tem como jogar altinha mais ou menos, sem estar de olho no ritmo, nos amigos. Você nunca sabe quando a bola vai parar no seu pé — ou no seu pescoço.

E depois — e mais importante. Quanto mais gente boa estiver ao seu lado, mais fácil fica. Difícil é jogar altinha rodeado de preguiçosos, ou de quem devolve de qualquer jeito. Com gente boa, a bola vem redonda. E mesmo quando você não capricha no passe, tem sempre um jeitinho de ajeitar e continuar no jogo.

Radicado no cerrado, demorei a perceber que bastava seguir os mesmos princípios da altinha em tudo na minha vida. No trabalho, em casa ou em qualquer lugar, vai ter sempre uma rodinha com gente querendo jogar contigo.

Certifique-se de estar ao lados dos bons e faça de tudo para manter o jogo rolando.

Ah, e fuja dos donos da bola.

A vida é pura altinha.