Na semana passada a influencer, blogueira ou qualquer que seja o adjetivo que você queira relacionar a ela, Gabriela Pugliesi, foi protagonista de mais um apedrejamento virtual da nossa era. 

Cancelada, enquanto escrevo Pugliese está inclusive com seu perfil no instagram desativado. Uma espécie de congelamento no tempo. Um circuit breaker dos influenciadores. Explico: com a conta desativada, é impossível deixar de segui-la. Ela aguarda algum tempo e retorna quando a poeira baixar. 

É tudo milimetricamente calculado. E é disso que eu quero falar. 

Não, esse não é um texto de linchamento à Gabriela. 

Ela estava errada? Sim. Muito, por sinal. Mas não foi a única. Esse final de semana, ao comentar com um amigo que estava escutando do meu apartamento uma festinha em algum lugar, ele me disse que uns dias antes ocorreu o mesmo em seu prédio. 

E nenhum de nós é vizinho da blogueira. 

É claro que o poder de influência desse tipo de pessoa faz com que sua responsabilidade seja muito maior. E deve ser, mesmo. Mas eventos como esse nos lembram de algo que teimamos em esquecer: essa gente é normal. Esse é o seu normal. 

Gente normal pisa na bola. Faz merda. 

O fato da influencer ter ficado famosa por dar dicas de saúde e mostrar um estilo de vida tido como impecável joga sobre ela uma culpa ainda maior. 

Acaba que Pugliese é refém do circo que ela mesma montou. Onde a atração é sua própria vida. E em um tempo de pandemia, onde não temos mesmo uma rotina muito diferente para esbanjar, é preciso se virar para aparecer. No fundo, eu penso: "Bem feito, tinha mais é que se fuder.". Mas por outro lado, eu me pergunto incrédulo como chegamos a esse ponto. 

O ponto em que acabamos esquecendo o que é real real e sendo completamente inconsequentes para nutrir o real virtual.

O real é um número recorde de mortos no país e estados sitiados na pandemia. O real virtual é dar uma festa e registrar. Ao contar essa história para alguém 20 anos atrás, antes de qualquer rede social, imagino a resposta.  

"Mas quem é que registrou essa festa? Não é possível que ela mesmo fez isso."

Nos anos 90, lembro de assistir a comerciais de uma bebida isotônica com uma musiquinha hipnotizante com o Michael Jordan. "Like Mike. I could be like Mike" (Igual ao Mike, eu poderia ser igual ao Mike). 

Todo mundo queria ser o Michael Jordan. 

É claro que sim. O Michael Jordan é um baita de um negão forte, multicampeão, engraçado nas declarações, milionário e ainda por cima estiloso. Quem não ia querer ser assim?

Talvez uma pessoa que acompanhasse Michael 24h por dia. Assim, veria seu lado arrogante, ambicioso, vaidoso e com hábitos não tão saudáveis. Um Michael humano. 

Quase 30 anos depois, criamos hábitos diferentes para nos vendermos. Guardadas as proporções, enquanto Michael precisava entrar em quadra e treinar horas a fio por dia, hoje é possível fazer dinheiro de uma forma mais democrática: se filmando em casa. 

Em bem menos tempo que 30 anos, essa prática se tornou muito comum, fazendo com que muita gente aderisse e se tornasse criadora de conteúdo. O mercado foi ficando cada vez mais profissional. E mesmo com o conteúdo não sendo sempre tão relevante, é quase sempre bonito e mimético ao natural. 

Não é idêntico. Não faz referência. Ele cria uma associação na nossa cabeça. É como um show de mágica. Ou de hipnose, não sei. 

Quando a gente acorda, com bafo e remela, já tem stories de alguém acordando e dançando, sem bafo e sem remela. A gente nem reflete se aquilo é ou não normal. Se aquela pessoa acordou assim ou se tomou um banho e voltou pra cama só para gravar aquele pedaço de vídeo. 

São profissionais cujo maior trunfo é ter cara e um jeitão de amador. Uma constatação que inclusive vale também para sites de conteúdo adulto. 

Dado o tempo que passamos consumindo conteúdo nas redes sociais, levamos o nosso dia todo acompanhando uma super obra de ficção. Pessoas bonitas, em forma, engraçadas, talentosas. 

É ótimo. 

O problema é que não nos damos conta de que tudo aquilo é montado. Acaba que em um dia, a única realidade que vemos de fato é a nossa vida fora da tela. É há muita discrepância. 

A sua companheira não acorda igual à blogueira. Você não tem o abdômen do influencer. Aquele cara é muito mais engraçado que você. E os tutoriais de maquiagem em 10 minutos? Puta que pariu, eu não acerto nem esse delineado. 

Será que só eu sou um fracasso?

Não, na verdade só estamos o tempo todo mirando no homem impossível. Aquele que o "darwinismo de internet" foi selecionando e colocou como relevante. 

E não se limita apenas à forma, mas ao conteúdo. São todos veganos, descontruídos, sustentáveis, politizados, pais de lindas crianças adotadas e incapazes de cometer uma gafe, uma covardia ou uma injúria. 

Como eternizou Fernando Pessoa no "Poema em linha reta", todos têm sido campeões em tudo. 

E logo você, que nem o abdômen definido tem, vai acabar deslizando em um comentário estúpido no meio da manhã?

Ah, não. 

É claro que é preciso evoluir. Mas acho que fomos rápidos demais. Calculistas. 

Nos tornamos impossíveis de sermos acompanhados por nós mesmos.