Eu não tenho sotaque. Mas minha paixão por mate de latão, biscoito globo e praia denunciam: eu sou carioca. E o pior: daqueles com raízes. Pais cariocas, avós cariocas. Não nego: meu background é feito de conceitos aprendidos entre a Tijuca e o Posto 12.

E mesmo morando há muitos anos em Brasília, bastam algumas horas no Rio para que eu recarregue esse repositório.

Mas calma. Esse texto não é uma ode à carioquice nem a aplausos ao pôr-do-sol. É um ensaio sobre o quão simples as relações que construímos na vida podem ser. Tão simples quanto um domingo de praia, mesmo que você more em Brasília, como eu.

Não sei qual foi a última vez que você foi à praia de Ipanema. Mas acredito que, se foi, tenha esbarrado com um dos maiores ícones culturais da zona sul: a altinha. No resto do Brasil ela tem outros nomes, mas no Rio essa é a alcunha daquele esporte em que os amigos, em roda, chutam uma bola de futebol uns para os outros sem que ela toque na areia.

Familiarizado com a altinha? Ótimo. Então vamos ao universal Teorema da Altinha.

Para mim, o conceito da altinha é a forma mais simples de entender como pautar as relações que você tem a fazer na vida, em especial nos negócios.

Primeiro, é impossível jogar altinha sozinho. Se você não tem amigos, é embaixadinha — e não tem a menor emoção. Na altinha é preciso pelo menos duas pessoas. E digo pelo menos porque quanto menor a quantidade de gente, maior vai precisar ser o empenho para que a coisa aconteça.

Na altinha todo mundo tem que estar a fim. Se não está, senta na cadeira e observa. Não tem como jogar altinha mais ou menos, sem estar de olho no ritmo, nos amigos. Você nunca sabe quando a bola vai parar no seu pé — ou no seu pescoço.

E depois — e mais importante. Quanto mais gente boa estiver ao seu lado, mais fácil fica. Difícil é jogar altinha rodeado de preguiçosos, ou de quem devolve de qualquer jeito. Com gente boa, a bola vem redonda. E mesmo quando você não capricha no passe, tem sempre um jeitinho de ajeitar e continuar no jogo.

Radicado no cerrado, demorei a perceber que bastava seguir os mesmos princípios da altinha em tudo na minha vida. No trabalho, em casa ou em qualquer lugar, vai ter sempre uma rodinha com gente querendo jogar contigo.

Certifique-se de estar ao lados dos bons e faça de tudo para manter o jogo rolando.

Ah, e fuja dos donos da bola.

A vida é pura altinha.